Essa é minha última carta dedicada a você.

Um dia após o outro. Um passo de cada vez. Assim era o mantra que eu recitava mentalmente, com os fones de ouvido caminhando pela avenida. A chuva cortava meu rosto e eu sentia arrepios. Queria que ela levasse toda dor embora, então apenas levantei a cabeça e deixei que me lavasse.
Mais uma vez sentia dor, uma dor incontrolável, parecia rasgar o peito, respiração lenta, quase impossível inflar o peito e as lágrimas insistiam em escorrer, involuntárias. Exatamente como as outras duas vezes. Eu e essa mania de me jogar fervorosamente nas coisas e acabar sofrendo na mesma intensidade.

Abri a porta do apartamento e tive vontade de voltar correndo pra rua. Uma semana trancada nesse lugar, vegetando, sem mexer em qualquer coisa, apenas levantava do sofá e deitava na cama. A mesa de centro era um grande depósito de comidas roídas. Com certeza não era uma ser humano que havia habitado ali nos últimos dias.
Cinzeiro transbordando, canecas de café e muitas folhas com textos não terminados. A bagunça da casa, refletia exatamente como eu me sentia por dentro, um verdadeiro caos. Sentei no sofá e coloquei as duas mãos na cabeça, não sabia por onde começar. Por mim ou pela casa?

A última imagem tua passava com um cd arranhado, não seguia, trancava, voltava, trancava de novo e assim perdurava por horas. Queria apenas ficar com a penúltima em minha mente, que foi quando cuidei de ti a noite toda. Estava doente e por algum motivo eu me sentia responsável por um cara de trinta e três anos, mas não foi essa imagem bonitinha de cuidado e carinho e sim aquela que me fez submergir nesse lugar escuro, de cortinas fechadas, essa bagunça que parecia nunca ter um jeito de arrumar e o mau cheiro que tinha na minha casa. Isso tudo refletia minha dor ao te ver se despedindo aos beijos de uma desconhecida uma semana após o nosso “término”.

Criei esperanças sim, dei o melhor de mim, fiz tudo pra que ao meu lado você fosse único e especial. Mas eu queria saber onde estavam todas as coisas que você havia falado. Sobre paixão, sobre gostar da minha companhia e toda aquela merda que faz com que a gente acredite ter encontrado o príncipe no cavalo branco, acho que eu havia escolhido o cavalo ao invés do príncipe.
Abri as cortinas da alma, coloquei minha música preferida e havia chegado a hora de dar um jeito em tudo. Não adiantava mais me prender nisso, apenas tentar juntar todos os cacos, inclusive os do abajur que eu havia quebrado.
Foi o que fiz, lentamente. A arrumação durou exatos três dias. Foi o tempo necessário para a desintoxicação do corpo e da casa.

Lavei e esfreguei tudo. Meu corpo, meu quarto e todas as minhas roupas. Tirei o tapete da sala e lavei as toalhas de banho que estavam na porta do quarto. Eu estava pronta. Pronta pra seguir sem qualquer rastro, cheiro e marcas que você deixou em mim.

 

Imagem: Pinterest

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